MISTÉRIO-RAIZ
Jairo, em dado momento da conversa, diz que a cabulosa história acontecida na cidade de Naribe continuava mantendo status de mistério-raiz. Para ele, mistério-raiz era um acontecimento de natureza discutível, porém, sem opção de crédito, a não ser mistério. Questionado se o código Da Vinci seria mistério-raiz, respondeu que havia opção de crédito. Então contou a história acontecida na cidade de Naribe.
– Depois que as chamas foram controladas e o incêndio sido debelado, contaram-se quarenta e oito corpos vítimas da tragédia. O proprietário do fabrico, quarenta e quatro empregados e três desconhecidos que tiveram um x gravado na testa, atestando identidade ignorada. O fabrico funcionava em um vão de cinquenta metros de comprimento por quinze de largura. Nas paredes laterais e frontais, havia cobogós. O único acesso disponível era através de um portão de ferro mantido sempre fechado em razão dos constantes acessos de cães de rua. O incêndio teria iniciado na entrada do galpão, pois havia grande quantidade de espuma, algodão e isopor. Artefatos que não combinavam com tomadas elétricas improvisadas dispersas nas paredes existentes naquelas imediações. O horário que teria iniciado não se sabe. Mas, acredita-se que fora após o almoço. Às 15 horas, havia fumaça ganhando altura, saindo através dos cobogós. Transeuntes, ao correrem para averiguar o que acontecia, não chegaram a tempo. O pessoal, sem opção de saída, se protegera nos fundos do galpão, falecendo por inalação de fumaça tóxica. Contaram-se quarenta e oito corpos, dos quais, como fora dito, três de identidade ignorada os quais não carregavam documentos. O fato aconteceu em Naribe, um município que contava, na época, com cerca de cento e vinte mil habitantes. Um município onde todos se conheciam. Local que não atraía ninguém. O fabrico quase artesanal não precisava de mão de obra nem contratada nem clandestina. Por aqueles dias não havia chegado na estação rodoviária nenhum ônibus de outros estados e nem de outros municípios. Ninguém do próprio município ou até das redondezas não tinha reclamado da falta de alguém. O proprietário do fabrico almoçava com os empregados. Quarenta e cinco almoços diários haviam sido servidos ao longo dos trinta dias antes da fatalidade. E no dia fatalidade, quarenta e cinco almoços haviam sido servidos. Então quem seriam aqueles três indivíduos? Permanecem sepultados no cemitério de Naribe. Atualmente são raras vezes. Mas, antigamente, o público que visitava o cemitério procurava identificar aqueles rostos. Identificação que nunca prosperou.
– …
– Vejamos então a face do mistério do “Hotel Sonhos Prazerosos”. Vários casos de AIDS tiveram como berço o “Hotel Sonhos Prazerosos”. Muitos hóspedes contavam terem vivido noites fascinantes. Tudo se iniciava a partir da meia-noite. Debruçado na janela, avistava-se uma praça maravilhosa nascer sob os olhos. Garotos e garotas formidáveis passeavam ao longo da praça. O Romeu ou a Julieta, ou até mesmo Romeu e Julieta, uma vez requisitados por alguns dos encantadores madrugadores, desciam para prolongar a conversa, ao retornar para o interior do hotel, nunca desacompanhados, deitavam-se, mergulhando, pois, em sonhos prazerosos. Então se dizia que tais hóspedes viviam uma ilusão já que, nas imediações do hotel, havia um cemitério onde vários artistas afeiçoados tinham sido sepultados. Esse mistério nunca apurado rondou por anos o “Hotel Sonhos Prazerosos”. Um dia, no entanto, o casal de idosos, proprietários do citado hotel, já de idade bastante avançada, contrairia AIDS. Sentindo-se também vítimas, foram aos poucos revelando particularidades. Os Romeus ou as Julietas, ou até mesmo Romeus e Julietas, eram na verdade, dopados pelo casal de idosos, através de uma fórmula que produzia visões. Então as noites prazerosas vividas pelos hóspedes eram, na verdade, deitados na cama com o casal de cafajestes, proprietário do hotel. Existem centenas de mistérios típicos. Posicionando sobre a minha convicção, digo que mistério-raiz, pode até balançar, porém permanece inalterado. Já mistério aleivoso, como vimos, um dia é deslindado.
– Depois que as chamas foram controladas e o incêndio sido debelado, contaram-se quarenta e oito corpos vítimas da tragédia. O proprietário do fabrico, quarenta e quatro empregados e três desconhecidos que tiveram um x gravado na testa, atestando identidade ignorada. O fabrico funcionava em um vão de cinquenta metros de comprimento por quinze de largura. Nas paredes laterais e frontais, havia cobogós. O único acesso disponível era através de um portão de ferro mantido sempre fechado em razão dos constantes acessos de cães de rua. O incêndio teria iniciado na entrada do galpão, pois havia grande quantidade de espuma, algodão e isopor. Artefatos que não combinavam com tomadas elétricas improvisadas dispersas nas paredes existentes naquelas imediações. O horário que teria iniciado não se sabe. Mas, acredita-se que fora após o almoço. Às 15 horas, havia fumaça ganhando altura, saindo através dos cobogós. Transeuntes, ao correrem para averiguar o que acontecia, não chegaram a tempo. O pessoal, sem opção de saída, se protegera nos fundos do galpão, falecendo por inalação de fumaça tóxica. Contaram-se quarenta e oito corpos, dos quais, como fora dito, três de identidade ignorada os quais não carregavam documentos. O fato aconteceu em Naribe, um município que contava, na época, com cerca de cento e vinte mil habitantes. Um município onde todos se conheciam. Local que não atraía ninguém. O fabrico quase artesanal não precisava de mão de obra nem contratada nem clandestina. Por aqueles dias não havia chegado na estação rodoviária nenhum ônibus de outros estados e nem de outros municípios. Ninguém do próprio município ou até das redondezas não tinha reclamado da falta de alguém. O proprietário do fabrico almoçava com os empregados. Quarenta e cinco almoços diários haviam sido servidos ao longo dos trinta dias antes da fatalidade. E no dia fatalidade, quarenta e cinco almoços haviam sido servidos. Então quem seriam aqueles três indivíduos? Permanecem sepultados no cemitério de Naribe. Atualmente são raras vezes. Mas, antigamente, o público que visitava o cemitério procurava identificar aqueles rostos. Identificação que nunca prosperou.
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– Vejamos então a face do mistério do “Hotel Sonhos Prazerosos”. Vários casos de AIDS tiveram como berço o “Hotel Sonhos Prazerosos”. Muitos hóspedes contavam terem vivido noites fascinantes. Tudo se iniciava a partir da meia-noite. Debruçado na janela, avistava-se uma praça maravilhosa nascer sob os olhos. Garotos e garotas formidáveis passeavam ao longo da praça. O Romeu ou a Julieta, ou até mesmo Romeu e Julieta, uma vez requisitados por alguns dos encantadores madrugadores, desciam para prolongar a conversa, ao retornar para o interior do hotel, nunca desacompanhados, deitavam-se, mergulhando, pois, em sonhos prazerosos. Então se dizia que tais hóspedes viviam uma ilusão já que, nas imediações do hotel, havia um cemitério onde vários artistas afeiçoados tinham sido sepultados. Esse mistério nunca apurado rondou por anos o “Hotel Sonhos Prazerosos”. Um dia, no entanto, o casal de idosos, proprietários do citado hotel, já de idade bastante avançada, contrairia AIDS. Sentindo-se também vítimas, foram aos poucos revelando particularidades. Os Romeus ou as Julietas, ou até mesmo Romeus e Julietas, eram na verdade, dopados pelo casal de idosos, através de uma fórmula que produzia visões. Então as noites prazerosas vividas pelos hóspedes eram, na verdade, deitados na cama com o casal de cafajestes, proprietário do hotel. Existem centenas de mistérios típicos. Posicionando sobre a minha convicção, digo que mistério-raiz, pode até balançar, porém permanece inalterado. Já mistério aleivoso, como vimos, um dia é deslindado.