VOLTARIAM

          O magoado casal de idosos, Plácido e Dominga, acreditavam no retorno à vida após a morte.


Observavam, através da persiana, o apartamento em um nível abaixo, do hotel em frente. A displicência do hóspede observado caía como dádiva. O hóspede displicente, mesmo escondendo-se, Plácido e a esposa sabiam o que estava realmente fazendo: contando os maços de cédulas. Colocava-os na valise, fechava-a e a depositava sob a cama. Ereto. Dobrava a mochila esvaziada, metia-a debaixo do braço, olhava em volta e saía. Só retornava no final da tarde, na companhia de uma mulher, recebia a valise e despedia-se. Tal observação acontecia, pela oitava vez consecutiva, nas quartas-feiras.

          – Somos ávidos de culpa, querida. O descarado realiza o ato suspeito, com a janela escancarada. Sei que na quarta-feira próxima, pimba!… – diz o senhor Plácido afastando-se da janela e sentando-se na poltrona.          – É um delinquente, querido. – afirma a senhora Dominga. Havia acompanhado o esposo e sentado-se a seu lado.          Reflexivo o senhor Placido comenta:          – Não acredito que a polícia entrará em contato com o Charles e a Teresa para certificar se realmente perderam os documentos. Residem no sul. Além do mais, fornecemos número de contato de um telefone móvel que só Deus sabe de onde.          Usariam os nomes dessas pessoas para se hospedarem no hotel que observavam. O senhor Plácido, por sinal, já tinha se hospedado naquele hotel para sondar o ambiente que percorreria.          Terça-feira, véspera de quarta-feira, dia antes da ação.          O magoado casal Plácido e Dominga, estavam na recepção do mencionado hotel, complementados com disfarces. O senhor Plácido disse ao recepcionista que deseja permanência por duas noites, porém o único documento que possuíam era um boletim de ocorrência que constava terem sido vítimas de roubo, fato acontecido na cidade vizinha. Pagaria, no entanto, com dinheiro vivo…O recepcionista após manusear o documento diz:          – Acolheremos com prazer o simpático casal…Charles e Teresa. Respeitosamente.          No quarto, localizado no décimo andar, o senhor Plácido faz cara de que havia dado certo.          – Amanhã será o dia, querida. Câmera de segurança há somente no térreo. Estamos em um hotel cinco estrelas, no entanto, durante a madrugada, é um entra e sai desgraçado dos quartos.          Momentos depois, o senhor Plácido, em poder de um fio rígido e um maleável, diz que abriria a porta do quarto do gatuno num tapa.          – Os testes que fizemos deram certo. – afirma.          A senhora Dominga, por sua vez, desdobra uma folha de papel na qual constava o bilhete que o intruso Plácido deixaria sobre a cama do suposto gatuno observado. “VISITA OFICIOSA, SAFADO. NA PRÓXIMA, SERÁ OFICIAL.” Para todos os efeitos, quem ali estivera foram policiais corruptos.          Eram 14 horas da quarta-feira, o senhor Plácido tremia.          – Respire fundo, querido. – aconselha a esposa.          – Irei pelas escadas, serão seis lances descendo.          – E serão seis lances subindo de volta. O que me preocupa. – diz ela.          Ele diz que iria.          – Os fios, o bilhete e as luvas?          – Estão comigo.          – Vá. Ao retornar, suba as escadas devagar. – recomenda ela.          Ele sai, a senhora Dominga fecha a porta e passa a orar. Olha o relógio… São momentos angustiantes. No entanto, fora num tapa, como o senhor Plácido dissera. Quatro minutos depois, estava de volta em poder da valise. Trêmulo e ofegante.          –… Vá sentar, vá sentar… – aconselha a esposa agoniada.          – Conseguimos, filha.          – Conseguimos sim, vá sentar.          Na quinta-feira, pela manhã, deixam o hotel sem terem percebido nenhuma anormalidade. De volta ao apartamento, violam a valise e contam o montante.          – Quantia impressionante. – diz o senhor Plácido.          Manhã de domingo. A senhora Dominga que dirigia:          – Já estamos a oito quilômetros distantes da cidade. – observa ela.          – Restam apenas quatro quilômetros.          Dirigiam-se para uma localidade conhecida como Pedra Vinho. Havia um posto de combustível, passam por ele, metros depois dobraram a direita, percorreram alguns metros e chegaram a Pedra Vinho.          –… Sempre deserto…          Árvores e pássaros e mais nada. O senhor Plácido retira da mala do veículo uma pá. Ao pé da rocha batizada de Pedra Vinho, cava uma cova relativamente profunda. Concluído, coloca a valise na cova e encobre com terra.          – Há de se imaginar que aqui jaz uma valise contendo dinheiro? – pergunta ele.          – Espero que não, querido.           Silenciam. O senhor Plácido relembra o combinado:          – Quando retornarmos, nos encontraremos aqui.          – Sim. Quando retornarmos, nos encontraremos aqui. Tudo será mais uma vez maravilhoso, querido.          – E desta vez com menos sacrifício.          – Sim. Com menos sacrifício. – concorda a senhora Dominga.          – Recorda das canjas contendo apenas dorso de frango?          – Será passado, filho.          Inspecionam o serviço que haviam realizado, ele a abraça e, juntos, caminham de encontro ao veículo, na esperança de que retornariam e se reencontrariam ali.