PODCAST - I
A finalidade da entrevista era para apresentar o trabalho do convidado. Manifestar discordância seria de competência do ouvinte.
– Você assina com dois nomes? – Assinava como Eduardo Damasio. Um dia, por alguma razão, assinei como Eduardo Antonio Damasio. Dessa forma os dois nomes permaneceram. No entanto, é nítido que os trabalhos são os mesmos. Então posso tranquilamente afirmar que Eduardo Damasio e Eduardo Antonio Damasio são as mesmas pessoas. – “Aprecia textos concisos pois instigam o leitor a aprofundar o sentido.” É verdade? – Sempre fui fascinado por textos curtos: contos, preferencialmente. Enxergava-os como se fossem um presente ofertado pelos autores. Ampliava-os. Desenvolvia o raciocínio a meu gosto. – Tornou-se então um autor de textos concisos? – Há quem diga que autores de textos concisos são autores pequenos. Assim sendo, posso dizer que textos alongados muitas vezes são repetições do vazio. – Para muitos, a grandeza de uma obra é medida pelo número de páginas escritas. Concorda? – Certa feita, li num espaço já extinto, a obra de uma entusiasta. Embora, martelando em cima de um argumento frágil, mas controlando seus impulsos, percebi que ela construiu, a meu sentir, um trabalho ímpar. Acontece que desatentos autores, no intuito de inflar seus trabalhos, sopram para dentro deles um excesso de descrições e fantasias, às vezes comprometendo o valor da obra. Acabam por perder espaço para os autores renomados que não ocupam o mundo virtual – não mais capacitados ou criativos. Porém, assessorados, transformam um razoável ou bom argumento num trabalho casualmente volumoso, consistente, polido e sólido. Agrada o investidor, o leitor e a crítica. – Você acredita na existência de um mundo espiritual? – O fato de acreditar não quer dizer que a crença focada exista. O fato de não acreditar também não quer dizer que a crença focada não exista. Quando se fala na existência de um mundo espiritual, na grande maioria das vezes, estão destacando a regência do mal. Sendo sincero, a única coisa que eu consigo enxergar na ideia da existência de um mundo espiritual, seguindo o raciocínio da regência do mal, são aparições gratuitas de figuras intolerantes. Mas, às vezes, não passam de equívoco. São, na verdade, figuras tolerantes. Desmorona, rui assim, para mim, a ideia da existência de um mundo espiritual. Mas eu gosto de escrever sobre o tema. – Por que você gosta de escrever sobre o tema? – Acredito que encontro respostas para comportamentos não sociáveis. Como também encontro respostas para o fortalecimento da bonança. – Escrevendo sobre a existência de um mundo espiritual, você consegue entender a causa da existência do bem e do mal? – Sim. – Em “Abutres, endemoniados ou descontrolada guerra espiritual?” isso é nítido e a regência do mal se destaca…? – Perfeito. – “… segundo o autor, se desde os primórdios tempos houvesse uma árvore genealógica cuidadosamente escrita e a cada milésimo de segundo atualizada, muitas coisas seriam evitadas. O turista, por exemplo, teria certeza de onde pisaria. Certos trastes não estariam no poder. Nem muito menos certos trastes não seriam considerados sumidades. Casamentos e ou relacionamentos que culminam em tragédia seriam evitados.” – A árvore genealógica que serviria para mostrar ramificações e apontar direcionamentos tenebrosos ou iluminados, infelizmente não existe. Então, tais males seriam praticados por quem? Por abutres ou por endemoniados? Daí nasceu a curiosidade: abutres, endemoniados ou descontrolada guerra espiritual? – Suponhamos que, se vivêssemos numa descontrolada guerra espiritual, todo o mal florescido seria a título de vingança? – Referindo-me estritamente sobre a regência do mal. Quanto teria iniciado a descontrolada guerra espiritual? Nos primórdios tempos, assim que a primeira injustiça foi cometida e o primeiro crime praticado. A árvore genealógica serviria para mostrar ramificações e apontar direcionamentos tenebrosos ou iluminados. – Teoria? – Mera teoria. – Mas nem todos os seus textos concisos estão presos ao tema. – Num universo de 130 textos, creio que apenas uns oito estão. – “Traços da vida” está imune? – Sim. – Aprecio a retórica na tentativa de santificar um perfil: “Tentar elevar a vida de alguém como exemplo é complexo. A vida, que serviria de espelho, seria composta. Haveria contragosto em algum aspecto? Naturalmente. No entanto, seriam coisas pessoais. Portanto, tentar elevar a vida de alguém, como exemplo, seria, na verdade, uma ideia tropeça.” – A senhora Lana, proprietária do Armazém “Traços da Vida”, não era benquista na cidade então ressabiada preventivamente teceu a retórica. O repórter que a entrevistava, ao ouvir a história, contada por ela, mais errante da que estava acostumado a ouvir, petrificou. Seria ela um exemplo de vida. Porém, a retórica é válida: “Tentar elevar a vida de alguém como exemplo é complexo. A vida, que serviria de espelho, seria composta. Haveria contragosto em algum aspecto? Naturalmente. No entanto, seriam coisas pessoais. Portanto, tentar elevar a vida de alguém, como exemplo, seria, na verdade, uma ideia tropeça.” – Explique-me por gentileza: “O solo, certamente que é ruim. Pois não é brincadeira a quantidade de fertilizante que os poetas adocicados lançam sobre ele.” – Existe imenso esforço. Porém nada de bom se colhe. – Você é pessimista? – Qual seria a população do mundo quando a Bíblia foi escrita? Alguns milhares, certamente. Hoje a população mundial gira em torno de 8, 3 bilhões de pessoas. Por sua vez, os textos bíblicos permanecem impressionadamente atualizados. Portanto, sejamos otimistas em relação às nossas vidas. Por outro lado, quando se tratar da coletividade, sejamos francos. Porque promover e dançar o frevo, por exemplo, sobre esperança fajuta em nada ajuda. – Há quem diga que se faz muito para uma turma que não quer nada. – O número de remanescentes nunca parou de crescer. – Para finalizarmos. – Pois não. – “O que se pode dizer dos que vivem à margem da Lei? São estrumes ou incorporações do demônio.” – Similares também fazem parte dos que vivem à margem da Lei. Acredito que faz sentido. – … – Similares também fazem parte. – “Concepções de Milena”? – …Sim. – “… o que me irrita não é o grito do desesperado, e sim a comercialização da selvajaria, encenação e mentira.” – É o que se vê.